Ser “mãe de menina” em meio à cultura do estupro

Há quase um ano não escrevo neste espaço, mas hoje eu não podia calar. Hoje nos comoveu o fato de que 30 homens (TRINTA HOMENS) estupraram uma menina, de 16 anos e publicaram o fato em redes sociais…

O acontecimento é de uma barbárie tão absurda que choca, fere, agride a cada mulher, tendo sido ela vítima ou não vítima de qualquer violência sexual na vida, porque sabemos, mesmo que somos todas vítimas em potencial, porque todas já fomos ou conhecemos alguma mulher muito próxima que já foi vítima de violência…O fato mobilizou as redes durante todo o dia, causou comoção e indignação, mas não deveria nos chocar apenas pela barbárie e sim pelo que ele tem de mais comum: esses 30 homens não eram todos “doentes”, “bárbaros”, “marginais”. Eram homens, que tiveram uma socialização que os faz crer que tem direitos absolutos sobre o corpo de uma mulher qualquer.

Eu sou mãe de mãe de uma menina de 3 anos, estou grávida pela segunda vez, quase certamente de outra menina. Podia dizer aqui que quando o médico olhou para o tal tubérculo genital e falou que “era muito difícil que fosse um menino” aquela informação não fez a mínima diferença, pois pra mim tanto faz o sexo do bebê, mas isso não seria uma verdade. Ser mãe de menina faz toda a diferença…

Faz diferença porque vou criar minhas filhas em uma sociedade que promove a cultura do estupro, que não ensina seus meninos a respeitarem o corpo, os desejos e as vontades das meninas. Uma sociedade que usa mulheres para vender carros, cervejas, roupas, perfumes e qualquer outro artigo que se deseje vender ao público masculino. Uma sociedade que as objetificará como enfeites, que cobrará sua beleza, sua docilidade e seu recato. E essa sociedade, infelizmente não mudará em 10 ou 15 anos (talvez mude para pior).

Eu sempre ensinarei a minhas filhas sobre consentimento, sobre dizer não e exigir que seus “nãos” sejam respeitados. Mas isso não me impede de me sentir de mãos atadas, sabendo que não poderei protegê-las das violências que estarão sujeitas apenas por serem mulheres. Eu poderei ensiná-las o que é estupro, o que é violência sexual, que a culpa nunca será delas, mas não estarei no quarto quando o namorado forçar a barra e sem ela estar afim, ou quando ela beber demais e o amigo oferecer carona e achar que isso quer dizer um sim. Não vou poder evitar que elas entrem em relacionamentos abusivos onde sexo sirva de moeda de troca por migalhas de afeto…

Talvez a parte mais fácil da minha tarefa seja ensiná-las a correr e gritar se forem atacadas em uma rua escura, mas temos que parar de ver a violência sexual apenas como o ato de um “tarado” que ataca na calada da noite e começar a enxergar a violência diária, a qual talvez nossa mães, irmãs e amigas estejam sendo submetidas bem ao nosso lado. Uma violência que é corroborada e ensinada por toda a sociedade, que tem a conivência de toda uma cultura, voltada para promovê-la e naturalizá-la.

Essa cultura não irá mudar de uma hora para a outra, na verdade eu me vejo bem pessimista e não a vejo mudar tão cedo… Porque ela passa por uma mudança no pensamento e nas atitudes de toda a sociedade. Ao mesmo tempo em que vejo mães tentando criar meninos mais respeitosos eu vejo amigos dizendo ao pai de menina que ele “deixou de ser consumidor pra virar fornecedor”, familiares perguntando se o menininho de 4 anos já tem namoradinha, body de bebê escrito “Salva Gatas” e uma infinidade de “inocências” que reforçam o pensamento de que “menino é assim mesmo”. Lá na frente esse mesmo menino vai estar na mesa do bar dando tapinha nas costas do brother que controla o tamanho da saia da namorada, que força a barra com a guria na balada, achando que isso não é nada e fazendo girar a roda da cultura do estupro.

Apenas para fins de curiosidade: o 9º anuário do Fórum Brasileiro sobre Segurança Pública traz o dado de 47.646 estupros registrados no Brasil no ano de 2014 – o que daria uma média de um estupro a cada 11 minutos – porém estima-se que apenas 35% dos casos sejam reportados à polícia, o que daria um número quase 3 vezes maior! Este mesmo anuário traz o dado de que 90,2% das mulheres tem medo de sofrer violência sexual…

Tá facinho ser mulher nesse século 21…

 

Fazendo as pazes com meu desmame

IMG_20140113_084831Minha filha mamou no peito, exclusivamente até os seis meses, em livre demanda até um ano, quase sempre que quis até os 20 meses, para dormir até os 22 meses… Sim, ela foi desmamada com quase dois anos e só agora, passados mais de seis meses do nosso desmame, eu consigo falar abertamente sobre isso.

Aos olhos de todos o desmame da minha filha foi natural, ela foi diminuindo suas mamadas até que um dia desistiu de mamar, mas eu sei que não foi assim e ela também soube… O desmame foi conturbado e sofrido, para nós duas, ainda que isso não tenha sido aparente. Começou em outubro do ano passado, quando ela estava com 1 ano e 8 meses. Pouco menos de um mês antes eu havia sido chamada em um concurso público, neste curto período de tempo eu o Diego tivemos que procurar creche, escolher, readaptar nossa rotina. O Diego tirou férias para que ela pudesse ter um pouco mais de tempo para a adaptação, mas cinco semanas eram pouco tempo para acostumar alguém que passou toda sua vidinha com a mãe em tempo integral a ficar longe por mais de dez horas no dia, de uma hora para a outra…

E ela se adaptou, depois de um início um pouco conturbado passou a comer melhor na creche, já não chorava (tanto) para ir no colo da professora, sabia o nome dos coleguinhas e perguntava por eles no final de semana, estava feliz. Eu também estava me adaptando, a ficar longe dela, longe de casa, a conversar com outros adultos sobre assuntos que não eram fraldas, papinhas e horas de soneca…

Mas as mudanças foram grandes, depois de trabalhar das 8h às 18h eu chegava em casa cansada, ela também já estava quase dormindo. As cerca de três mamadas diárias diminuiram para uma antes de dormir. E eu estava emocionalmente fragilizada, me sentindo frustrada por ter tido que proporcionar à minha filha uma mudança tão brusca, sem sequer um tempo maior de adaptação, o trabalho em si não era uma grande motivação, era apenas um trabalho que eu precisava – e ainda preciso no momento e que consumia a maior parte útil do dia.

E no meio desse turbilhão de emoções maternas e de mudanças na vida da filha veio o desmame, dois meses depois de eu começar a trabalhar. Ela foi “perdendo o interesse” no peito e eu fui deixando de oferecer, como eu disse antes, aparentemente tudo muito natural, mas eu sabia que não. E me senti culpada, muito culpada, pois além de todas as mudanças de rotina e simplesmente ‘me deixei’ desmamar, naquele que não era o melhor momento para minha filha.

Isso foi há seis meses, mas só agora eu consigo realmente falar sobre o desmame sem aquele véu de “ela desmamou, foi natural…” para tentar me sentir mais confortável. A verdade é que aquele período foi um momento de mudanças muito bruscas, para as quais eu não estava preparada – e talvez ainda não esteja – e que emocionalmente eu não estava conseguindo lidar com a amamentação da minha filha. Nunca me vi fazendo praticando amamentação prolongada, mas pretendia deixar minha filha mamar até quando ela precisasse.Acabei conduzindo um desmame precoce – ainda que ela tenha mamado até quase dois anos – pois ela não estava pronta para desmamar naquele momento.

Eu demorei seis meses até conseguir fazer as pazes com meu desmame, até conseguir ter uma auto-empatia (será que isso existe gente) e entender que eu fui ao meu limite e que não conseguiria passar daquele ponto, até aprender que mesmo com toda a informação, a vontade e o apoio familiar que eu tive desde o início o equilíbrio que faz com que a amamentação seja uma tarefa leve e possível pode se quebrar quando menos esperamos.

Obviamente eu não vou me isentar da responsabilidade pelas eventuais consequências que esse desmame abrupto, ainda que com uma aparência de gradual e natural, possa ter na minha filha. Essa consciência e a tentativa de lidar com elas é inclusive o que me faz conseguir ser mais compreensiva e saber que fiz o que me foi possível diante das circunstâncias específicas que me afetaram.

 

O tablet, o celular e o jantar

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Esse post nasceu de uma conversa que tive na semana passada, com uma colega de trabalho. Era segunda-feira e ela havia saido para jantar com o namorado no sábado, neste jantar uma cena, que já está se tornando corriqueira no nosso cotidiano, lhe chamou a atenção e causou um profundo desconforto: uma criança de cerca de dois anos na mesa ao lado que passou o tempo todo absorta no tablet enquanto os pais jantavam.

Essa colega tem aproximadamente a mesma idade que eu, não tem filhos – e não pretende te-los – mas tendo dois irmãos mais novos e conhecendo minimamente crianças ela sentiu-se incomodada em ver uma criança TÃO quieta e, principalmente, tão alheia ao que estava acontecendo à sua volta. Passamos boa parte daquela manhã de segunda relembrando nossas próprias infâncias, nos duas somos as mais velhas de três irmãos em nossas familias e temos muitas recordações de almoços e jantas em restaurantes com crianças brincando ou dormindo nas cadeiras, brinquedos ganhando comida na boca e muita fantasia… E nos pegamos nos perguntando, será que nossos pais tinham tanta dificuldade assim para sair e se divertir na era pré tablet?

Minha filha está agora com pouco mais de dois anos e nós frequentamos restaurantes com bastante frequência. Nesses momentos ela geralmente leva o Panqueca – um dinossauro de borracha que é o brinquedo favorito dela – e rola muita brincadeira, conversas sobre os mais variados assuntos -o dia a dia na creche, desenhos favoritos, brincadeiras – rola um stress de vez em quando, mas geralmente contornavel. A grande diversão é justamente  inseri-la nesse momento, fazendo que ela participe da refeição conosco.

Vejam bem que eu não estou dizendo que os eletrônicos devam ser queimados em uma fogueira, ou que são coisas do mal – até porque estou escrevendo este texto em um deles no momento – já usei tablet em viagens longas de carro, por exemplo e, otimista que sou, sempre tendo a ver o lado positivo das tecnologias. O que me incomoda na presença massiva de celulares e tablets nas mãos de crianças tão pequenas em praticamente todos os restaurantes e praças de alimentação que eu frequento é que nos adultos estamos perdendo a capacidade de conviver com nossas crianças, de nos conectarmos com elas e termos tolerância com seu tempo.

Com a entrada do tablet e do celular no jantar saem de cena o teatrinho com palitos de dente, o barco de guardanapo, as aventuras embaixo da mesa. E se a criança perde todos esses momentos lúdicos de interação com os adultos que estão à mesa, nós também perdemos grandes oportunidades de criar alternativas e nos conectarmos mais um pouco com elas. Na adolescência elas naturalmente irão preferir responder notificações das redes sociais do que conversar sobre seu dia na escola, pra quê adiantar as coisas né? Bora conversar com elas agora e aproveitar sua companhia…

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